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  • Marcos Cardoso

Um olhar humano sobre a Inteligência Artificial (IA)


Você entra no Facebook, há notícias do seu interesse, amigos de que gosta e que pensam como você.


Você é de esquerda (ou whatever), vê artigos alinhados com sua ideologia e também pessoas que você admira defendendo os mesmos pontos de vista. Vez ou outra alguma ideia oposta, já colocada de maneira ridicularizada.


Nos sites que acessa, anúncios ofertando produtos do seu interesse. Inclusive, as propagandas que assiste lhe agradam muito, a cor dos olhos dos personagens, o cabelo, se é canhoto, a cor da roupa, etc.


Quando liga na central de atendimento para comprar algo, a pessoa tem grande afinidade com seu perfil, a venda acontece fluidamente, vocês quase viram amigos.


O mundo parece estar totalmente alinhado com seu perfil e com seus interesses. Que maravilha é este mundo digital que me atende do jeito que eu desejo… Bem-vindo à era da Inteligência Artificial (IA)! Tudo é personalizado em um nível altíssimo e a gente nem percebe, apenas sente.





Sou fã de novas tecnologias e acredito fortemente que ela traz benefícios enormes para a humanidade, mas é importante saber o que está acontecendo para não perder o que temos de mais valioso: a humanidade.


Este texto não explica a IA em detalhes, já que existem ótimos artigos (veja alguns aqui e aqui) que mostram em detalhes seus benefícios. Porém, quero dar minha visão sobre os impactos dessa nova realidade.


Nos negócios, a IA ajuda a equipe de vendas a ser mais produtiva, analisa dados históricos para identificar padrões e melhorar resultados.


Imagine carregar todos os manuais de seus dispositivos eletrônicos em um computador e depois perguntar para este mesmo computador coisas do tipo: “como configuro o relógio do meu carro?”, ou “para roupas brancas, qual é a melhor programação da minha máquina de lavar?”, e ter respostas de maneira fácil e na “sua linguagem”. Isso é possível com o Watson da IBM.


Toda semana, o Spotify disponibiliza para Débora uma playlist chamada “Descobertas da Semana”, que ela adora. Sempre tem uma música nova de que ela gosta. O Spotify utiliza IA para entender o gosto musical da Débora e sugerir novas músicas.

O Spotify utiliza IA para entender o gosto musical da Débora e sugerir novas músicas.

Podemos falar de inúmeros outros exemplos para a área médica, a indústria, os games, a área jurídica, etc. Definitivamente, a Inteligência Artificial veio para ficar!


E qual é o contraponto dessa história? Vamos usar os mesmos exemplos.

O sistema de IA pode perceber que, ao usar as palavras “esporte, emoção e produtividade” com o cliente José Carlos, as chances de vender algo aumentam em 30%, pois são assuntos sobre os quais o Sr. José adora ler a respeito, e estas palavras o deixam mais “vulnerável”. Da mesma maneira, se o sistema usar palavras como “berinjela” e “golf”, as chances de vendas diminuem. Tudo isso é mapeado pelos “likes” que José distribui pela internet.


No caso de não precisar ler manuais, não temos mais a chance de descobrir alguma funcionalidade nova enquanto lemos o manual do produto. Corremos o risco de comprar uma central multimídia com muitos recursos, mas só saber tocar músicas, passar filmes, aumentar o volume e no máximo calibrar um pouco as saídas de som.


No terceiro exemplo, apesar de adorar as sugestões semanais, a Débora nunca recebeu a sugestão para ouvir samba. Isso acontece porque ela não gosta muito de samba, mas a pergunta que fica é: Será que a Débora não gostaria de, em algum momento, ouvir samba? Ou será que ela não mudou seu gosto musical e estaria propensa a gostar de samba agora, aos 27 anos?


Será que a Débora não mudou seu gosto musical e estaria propensa a gostar de samba agora, aos 27 anos?

Esta é a reflexão aqui. A inteligência artificial é ótima, mas pode nos manter em nossa zona de conforto, já que temos acesso às coisas de que gostamos mais (ou pelo menos acreditamos que gostamos mais). A IA nos dá tudo de bandeja e os robôs (como são chamados os programas de IA) fazem de tudo para entender nossos gostos e nos dar sugestões de coisas que “nos agradam”, mas será que estes robôs fazem um bom papel em nos dar novas ideias?


Em confrontar nossos paradigmas? Ou será que não acabam criando a ilusão de que o mundo inteiro está de acordo com nossas opiniões e que a “nossa realidade” é a verdade absoluta?


Penso que a Inteligência Artificial não faz um bom papel em nos dar novas opções e nos fazer pensar diferente, pelo menos nos dias de hoje. E o que temos a perder com isso é muito valioso, como nosso poder de inovação, que muitas vezes vem de ideias diferentes, ideias malucas totalmente fora de nosso senso comum.


Outro risco é o de pensarmos que estamos sempre certos, que nossas opiniões são as mais aceitas e que as pessoas que pensam diferente de nós estão erradas, pois parece que a “maioria” das pessoas pensa como nós, ou seja, corremos o risco de viver cada vez mais afundados em nossa “bolha”.


O maior risco é de fazer as coisas no “modo automático”, sem pensar muito. Recebemos um e-mail com uma boa oferta daquele arroz de que gostamos e clicamos “comprar”, recebemos uma ligação e dizemos “sim”, lemos uma notícia e nos sentimos “atualizados”, e isso faz com que nossa vida vá passando neste modo automático.


E o que fazer, então? Acredito que dois elementos podem equilibrar esta balança: Autoconhecimento e Debates.





Autoconhecimento: Mais do que nunca, é essencial aprender sobre nós mesmos, ter um olhar questionador sobre si, entender de onde vêm nossos paradigmas, nossos julgamentos, nossas opiniões, onde aprendemos tudo isso, porque pensamos assim, o que nos faz dizer “sim”, para o que torcemos o nariz, quais são nossos pré-conceitos e preconceitos. Além de ser um processo intenso e marcante, aprender sobre nós mesmos ajuda a lidarmos melhor com a linguagem e as abordagens externas, aumenta a confiança, a paz de espírito e nos deixa abertos para entender as ideias diferentes de outras pessoas.


Debates: Converse com pessoas que tenham ideias diferentes, ideias opostas às suas no âmbito político, religioso, educacional, social, econômico. Ao invés de refutar ou simplesmente ser educado com a opinião do outro, passe a ter curiosidade pela opinião diferente da sua, ouça mais do que fale, mas também diga suas opiniões em voz alta para que possam ser questionadas. Precisamos exercitar o “concordamos que discordamos”, aprender com isso e expandir nossas ideias.


Resumo: Sabe aquela história da criança que é mimada demais pelos pais e tem tudo o que pede na hora em que quer? Daí a criança acha que o mundo é do jeito dela, que tudo tem que ser desse jeito e acaba não vivendo o mundo exterior. Pior, quando descobre que a realidade não é bem aquela, toma um baita choque.

Pois é, a Inteligência Artificial pode fazer isso, porque está sempre tentando nos agradar. O ideal é nos conhecermos e conversarmos com pessoas de ideias diferentes, debatermos, sairmos de nossa zona de conforto para, assim, não nos tornarmos "adultos mimados” :-)


Adoraria saber da sua opinião! Fique à vontade para comentar.


Um abraço, 


Marcos

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